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Ghost growth: quando o crescimento profissional existe só na teoria

Escrito por Autor 2 | 29/01/2026 19:19:51

O ghost growth avança em silêncio: mais responsabilidades, zero reconhecimento e um impacto real na retenção.

Imagine este cenário: um colaborador assume mais tarefas, responsabilidades ou até começa a liderar projetos estratégicos, mas sem receber aumento salarial, promoção formal ou qualquer mudança real no nível de autoridade. As expectativas crescem, mas a carreira fica estagnada. Reconhece? Isso é cada vez mais frequente que já ganhou até nome próprio: ghost growth.

Em um mercado de trabalho cada vez mais competitivo, em que as empresas exigem agilidade, adaptabilidade e resultados imediatos, o fenômeno do ghost growth é mais real do que nunca e afeta profundamente a motivação e o engajamento das equipes. E, embora não seja um problema novo, ganhou força no último ano por uma série de fatores.

Em alguns mercados, os números mostram a dimensão do problema. Estudos recentes revelam que 63% dos colaboradores nos Estados Unidos afirmam já ter vivido alguma forma de ghost growth, e 78% relatam ter recebido novas tarefas sem qualquer tipo de aumento ou promoção. O impacto na retenção também é significativo: cerca de 27% de quem passou por essa situação acabou pedindo demissão, e 41% está considerando fazê-lo caso seu crescimento continue sendo ignorado. São dados que explicam por que o fenômeno deixou de ser um comportamento isolado para se tornar um sinal de alerta para líderes e times de RH.

Por que as empresas caem no ghost growth

Várias razões explicam por que esse fenômeno está crescendo. A primeira é operacional: a redução de equipes e o aumento da carga de trabalho após ajustes econômicos levaram muitas empresas a distribuir tarefas adicionais entre quem já estava na organização, sem revisar estruturas salariais ou de cargos.

A segunda razão é estratégica: colaboradores de alto desempenho costumam ser os primeiros a receber responsabilidades extras porque “sempre entregam”. Embora bem-intencionada, essa prática acaba sendo contraproducente, já que o bom desempenho vira a desculpa perfeita para adiar promoções ou revisões salariais. O que começa como um reconhecimento informal se transforma em uma expectativa permanente.

A terceira razão é cultural. Muitas empresas ainda entendem desenvolvimento profissional como “dar mais” antes de haver validação formal. É uma abordagem que confunde proatividade com disponibilidade ilimitada e faz com que assumir mais responsabilidades nem sempre se traduza em oportunidades reais.

Por fim, há um fator pouco reconhecido: alguns líderes têm receio de promover seus melhores colaboradores por considerarem difícil substituí-los. O que começa como uma decisão prática acaba corroendo a motivação da equipe. Reter talentos por meio da sobrecarga, sem progressão real, raramente funciona.

Consequências diretas para colaboradores e empresas

O ghost growth gera efeitos que vão muito além da carga de trabalho. Para os colaboradores, significa frustração, falta de reconhecimento, perda de propósito e, em muitos casos, a sensação de estar preso a um cargo que já foi superado. Também alimenta o desgaste emocional, especialmente quando fica claro que a empresa espera mais sem oferecer, em troca, clareza, apoio ou crescimento real.

Para as empresas, o impacto também costuma ser pesado: a percepção de injustiça interna é um dos fatores que mais contribuem para o aumento das demissões voluntárias. Quando um profissional sente que sua contribuição deixou de ser valorizada, a decisão de sair fica muito mais fácil.

Como diferenciar desenvolvimento real de ghost growth

A diferença central está no reconhecimento formal. O desenvolvimento autêntico combina três elementos:

  • Novas responsabilidades
  • Ajuste de remuneração ou benefícios
  • Evolução do cargo ou do nível de autoridade

Se apenas o primeiro ponto aparece, estamos diante de um caso clássico de ghost growth. Outro sinal é a falta de uma conversa clara sobre o futuro. Se o colaborador não sabe para onde sua carreira está indo nem quais passos o levarão até lá, é difícil falar em crescimento real.

Enfrentar o ghost growth exige intenção e estrutura. Algumas práticas recomendadas incluem:

Promover internamente com intenção

Quando a empresa identifica um talento pronto para assumir um papel maior, formalizar essa mudança é fundamental. Promoções internas reduzem o tempo de adaptação, fortalecem a cultura e reconhecem o esforço consistente.

Não tomar como garantidos os colaboradores sempre dispostos a ajudar

As pessoas que sempre respondem, que sustentam equipes inteiras, costumam ser as primeiras a sofrer ghost growth. Reconhecer seus esforços, com aumentos, planos de desenvolvimento ou mentoria estruturada, é essencial para manter a motivação.

Abrir espaços para conversas contínuas

Reuniões one-on-one não devem ser burocráticas. Elas precisam servir para entender aspirações, revisar cargas de trabalho e ajustar expectativas. Avaliações anuais podem ir além das métricas e se transformar em conversas sobre futuro, trilhas de crescimento e o apoio necessário.

Conectar desenvolvimento a formação real

Capacitar a equipe não só reduz a sobrecarga, como torna o crescimento um processo tangível e profissionalizado. Habilidades técnicas, liderança, comunicação e até formação em idiomas ajudam o colaborador a se preparar para o próximo passo, em vez de ficar preso à execução de tarefas adicionais sem reconhecimento.

O ghost growth é um sintoma de estruturas rígidas, comunicação insuficiente e falta de reconhecimento formal. O crescimento profissional é uma das maiores fontes de motivação no trabalho e, quando esse crescimento é visível, reconhecido e alinhado a um plano claro, as pessoas prosperam. E quando as pessoas prosperam, as empresas também prosperam.